domingo, 4 de julho de 2010

Meu avô.

A vida da minha mãe nunca foi fácil. Quando solteira vivia sob o jugo do meu avô, que eu sei não era nada gentil, ao contrário era grosseiro e ignorante.Desculpe já é morto. A gente quase nunca fala dele, mas alguns epsódios me lembro bem. Sempre sentado em uma cadeira de balanço colocada no terraço em frente a casa, de onde apenas saia para as refeições e para deitar-se, creio eu, pois enquanto foi vivo não tenho memória de ter entrado naquela casa, ou de algum carinho ou uma palavra, nada! nada! Naquela época já havia tido um derrame, mas as mãos movia-as lentamente, de um saquinho de rapé ao nariz, e de quando em quando soltava escandalosos espirros. Antes do derrame corria atrás de minhas irmãs com uma enxadinha que de um lado tinha uma lâmina e do outro duas lanças pontiagudas que ele utilizava para carpir o terreiro e nos ameaçar, de sorte que quando se aventurava atrás de minhas irmãs com a rapidez de um velho não as alcançava, talvez aquilo fosse apenas para assustar, não chegaria as vias de fato, o fato é que assustava e nós batiamos em retirada, numa velocidade incrível, que só uma criança de oito, dez e onze anos podem ter, eram as idades de minhas irmãs, eu tinha seis e achava que nada daquilo era comigo, a inocência das crianças, o interesante e que me lembro bem de tudo isso.

Com mais de duas dúzias de irmãos dos quais quinze morreram, segundo minha avó. Muitos deles acometidos pelo tétano que eles conheciam como mal de sete dias. Guerreira minha avó teve todos esses filhos em casa e minha mãe com certeza ajudou trazê-los ao mundo, mais velha de todos foi testemunha de tanta coisa que nunca nos contou. Do meu avô sei, que era um beberão. Desculpe já é morto. Sei que com aqueles utencílios domésticos tesouras e facas enferrujadas cortavam o cordão umbilical, sem saber que ali naqueles objetos estavam depositados vírus, bactérias e toda gama de micro organismos que hoje conhecemos, mas que naquela época no obscurantismo em que vivíamos nem sonhavamos com essas espécies microorganicas, apesar de hoje saber, que pelos idos de 1590 Hans Jansem já havia inventado o microscópio.

Outro episódio marcante foi o dia de sua morte. Da sala apinhada de gente, não pela estima ao defunto, é que naqueles tempos ninguém faltava a um enterro. E minha mãe, ah! Minha santa mãezinha me fez beijar os pés do morto. Dali exalava um cheiro de cravo de defunto, ( aquelas flores amarelas de petalas miúdas ). As velas queimavam derretendo a cera por sobre os castiçais de prata, soltando no ar uma fumaça preta de aroma sufocante. Por trás dos castiçais, tapumes de madeira forrados de cetim roxo escondiam as paredes. No alto bem ao centro uma coroa de flores e um crucifixo. E dentro do caixão jazia ele , tão bravo que era, agora ali inerte com as mãos cruzadas sobre o peito onde não mais batia o coração, se é que teve coração. Ninguém mais tinha medo, todos respiravam aliviados, parecia que pairava uma paz nunca antes experimentada, naquele ambiente de luto de morte, exceto por um detalhe ninguém chorava, mas minha tia pra fingir grande tristeza, lascou em cada um de nós um doloroso beliscão. E todos caímos em prantos.







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