terça-feira, 20 de julho de 2010

O causo da mala preta.

Um belo sítio, as margens de um curso d'água repleto de rochas em seu leito, extensa vegetação que brota das barrancas do rio: samambaias, avencas, cordão de frade, bromelias, grandes árvores como araucarias, paineiras, pinheiros, pequenos arbustos, cedrinhos bem podados separando uma propriedade da outra como cercas vivas. Pássaros exóticos mas também muitos tico-ticos, pardais, quero-queros. E a vida que cresce por entre aquela vegetação: tatus, gambas, lagartos, raposas, cobras, aranhas. As pessoas que por ali transitam não se dão por conta de que tem como testemunha aquelas criaturinhas, que ao vê-los passar rastejam como relâmpagos para suas tocas, posso imagina-los em seus esconderijos tremendo de medo. Muitos daqueles que por ali passam, não fariam mal algum àqueles bichinhos, mas asseguro que a grande maioria faria.

O homem não aprendeu ainda a repartir a terra com todos os que nela moram, com os que dela precisam. É triste ver que estamos em extinção. A Terra não! Mas tudo o que nela há. Enquanto não nos damos por conta continuamos a admirar e destruir, até que tudo se acabe, e volte a existir.

E o pequeno sítio no seu verdor acolhe animaizinhos que as vezes em seu ímpeto de fuga, por ali se escondem até sentirem-se seguros.

A grande casa com seus quartos arejados, salas amplas, lareira de tijolos a vista, bela cozinha azulejada, fogão de lenha, redes na varanda, varais de roupas bem lavadas com sabão de pedra, cujo cheiro, fechando bem os olhos e apurando o olfato posso sentir e vislumbrar . Pisos de cerâmica, filtros e moringas de barro com águas muito frescas, tudo bem limpo e ornado com belas toalhas de crochê feitas á mão. Tudo é simples, como a vida no interior. Naquela casa não há quadros na parede, nem objetos de arte de valor inestimável, apenas abriga gente caipira de cidade grande , de bons costumes, gente alegre que tem como tesouro o chão por onde pisa.



No terreiro as flores dão um ar de zelo e capricho, roseiras vermelhas, brancas, cor de rosa, lirio da paz, pingos de ouro, nos vasos orquideas, miosotis, alison, onze horas. E o pomar que sonho, aquele pé de poncam, que em março fica apinhado de frutos dando água na boca de quem passa. O jasmineiro em flor dá ao ar um perfume penetrante, inesquecível, suas flores delicadas caem em pencas de seus galhos verdes e finos, arcados pelo exagero de folhas também muito verdes e miúdas. As cerejeiras perdem suas folhas caprichosamente no inverno e da lugar a um espetaculo de flores rosas só elas as flores grudadas em seus troncos em seus galhos. Foram plantadas ali beirando a cerca de arames propositadamente para dar alegria aos olhos de quem observa, e para dar a certeza de flores no inverno.
Ali cheira-se a terra, e quando chove, meu Deus quando chove, dela emana o seu aroma inconfundivel e você quer ficar ali deitar naquele chão misturar-se ao barro ser barro também e sentir só seu coração batendo compassadamente, calmamente, tranquilamente. E o cheiro da terra molhada...

Os porcos no chiqueiro, as galinhas poedeiras, as d'angola o galo Sabanho, a égua Pepita, os cavalos Juru e Para, a pastora belga toda preta Lady Dark Penelope. Era tudo o que tinhamos.

Certa vez deixamos tudo isso para traz e fomos morar na cidade, compramos um terreno com uma herança que ganhamos e contruimos e mudamos. A duras penas largamos tudo. Alugamos o sítio, que loucos, queriamos fugir dali depois de tanta felicidade. Um homem apareceu lá na casa nova dizendo que era amigo da Bene e queria alugar o sítio. Eu estranhei mas pensei: _ Se é amigo da Bene é meu amigo também, e ele tinha meu telefone só podia ser conhecido. Aluguei, $150,00 a diária. Quando fui entregar-lhe as chaves não tive coragem de ir sozinha, levar as crianças então de companhia nem pensar, aquele homen poderia ser um assassino, agora a minha mente só trabalhava nessa idéia, assassino, aluguei meu sítio para um assassino. Convidei um amigo para ir comigo, esperamos um pouco e logo ele chegou em um gol verde bem velho me assustando ainda mais, disse que passaria ali os três dias de carnaval com a familia, mas apresentou-se só e tirou do porta malas uma grande mala preta, que pela força que fez ao tira-lá deu-me a impressão de estar bem pesada. Nessa altura dos acontecimentos, eu era capaz de jurar que tinha um cadáver naquela mala. Mas como proibir o homem de entrar como desfazer o negocio! Acabei entregando-lhe as chaves e parti com meu amigo dali, retornando três dias depois conforme o combinado. Aquele inquilino indesejável teve a coragem de dizer que podia ficar na casa se quissesse, visto que eu nada exigira dele apenas a palavra empenhada de devolver-me as chaves findos três dias. O sangue me enrubeceu as faces, minha carne tremeu nos ossos e meu coração batia tão apavorado, como dos bichinhos indefesos que citei anteriormente, medo! medo! medo!
Mas o homem para meu alívio entregou-me as chaves, e partiu com sua mala preta.

domingo, 4 de julho de 2010

Meu avô.

A vida da minha mãe nunca foi fácil. Quando solteira vivia sob o jugo do meu avô, que eu sei não era nada gentil, ao contrário era grosseiro e ignorante.Desculpe já é morto. A gente quase nunca fala dele, mas alguns epsódios me lembro bem. Sempre sentado em uma cadeira de balanço colocada no terraço em frente a casa, de onde apenas saia para as refeições e para deitar-se, creio eu, pois enquanto foi vivo não tenho memória de ter entrado naquela casa, ou de algum carinho ou uma palavra, nada! nada! Naquela época já havia tido um derrame, mas as mãos movia-as lentamente, de um saquinho de rapé ao nariz, e de quando em quando soltava escandalosos espirros. Antes do derrame corria atrás de minhas irmãs com uma enxadinha que de um lado tinha uma lâmina e do outro duas lanças pontiagudas que ele utilizava para carpir o terreiro e nos ameaçar, de sorte que quando se aventurava atrás de minhas irmãs com a rapidez de um velho não as alcançava, talvez aquilo fosse apenas para assustar, não chegaria as vias de fato, o fato é que assustava e nós batiamos em retirada, numa velocidade incrível, que só uma criança de oito, dez e onze anos podem ter, eram as idades de minhas irmãs, eu tinha seis e achava que nada daquilo era comigo, a inocência das crianças, o interesante e que me lembro bem de tudo isso.

Com mais de duas dúzias de irmãos dos quais quinze morreram, segundo minha avó. Muitos deles acometidos pelo tétano que eles conheciam como mal de sete dias. Guerreira minha avó teve todos esses filhos em casa e minha mãe com certeza ajudou trazê-los ao mundo, mais velha de todos foi testemunha de tanta coisa que nunca nos contou. Do meu avô sei, que era um beberão. Desculpe já é morto. Sei que com aqueles utencílios domésticos tesouras e facas enferrujadas cortavam o cordão umbilical, sem saber que ali naqueles objetos estavam depositados vírus, bactérias e toda gama de micro organismos que hoje conhecemos, mas que naquela época no obscurantismo em que vivíamos nem sonhavamos com essas espécies microorganicas, apesar de hoje saber, que pelos idos de 1590 Hans Jansem já havia inventado o microscópio.

Outro episódio marcante foi o dia de sua morte. Da sala apinhada de gente, não pela estima ao defunto, é que naqueles tempos ninguém faltava a um enterro. E minha mãe, ah! Minha santa mãezinha me fez beijar os pés do morto. Dali exalava um cheiro de cravo de defunto, ( aquelas flores amarelas de petalas miúdas ). As velas queimavam derretendo a cera por sobre os castiçais de prata, soltando no ar uma fumaça preta de aroma sufocante. Por trás dos castiçais, tapumes de madeira forrados de cetim roxo escondiam as paredes. No alto bem ao centro uma coroa de flores e um crucifixo. E dentro do caixão jazia ele , tão bravo que era, agora ali inerte com as mãos cruzadas sobre o peito onde não mais batia o coração, se é que teve coração. Ninguém mais tinha medo, todos respiravam aliviados, parecia que pairava uma paz nunca antes experimentada, naquele ambiente de luto de morte, exceto por um detalhe ninguém chorava, mas minha tia pra fingir grande tristeza, lascou em cada um de nós um doloroso beliscão. E todos caímos em prantos.







sexta-feira, 18 de junho de 2010

Minha santa mãezinha.

Minha mãe separava pra mim umas roupas esquisitas, por falta de dinheiro toda roupa que ganhava ela arrumava, reformava e me presenteava. Meu uniforme da escola ela mesma costurava, era uma saia azul marinho pregueada, camisa branca, gravatinha azul marinho também com faixinhas brancas uma, duas de acordo com a série que você cursava, sapatos pretos e meias 3/4 brancas. Ia cedo pra escola, sozinha, subia a Rua Hercília, até o Grupo Escolar José Talárico. As meninas da minha turma pareciam ricas, algumas levavam "Lanche Mirabel" e "guaraná Antárctica caçulinha. Nossa! Aquilo para mim era o máximo! Tinham dinheiro pra comprar pirulito "G'craque" não lembro mais a grafia, lembro que de vez em quando comprava um na saída da escola e vinha pra casa feliz da vida com aquela delícia nas mãos, e chupava com cuidado pra não acabar logo. O chiclete mascava o dia inteiro e quando ia dormir guardava em um copo com água. Engraçado hoje o chiclete quando mascado muito tempo disolve na boca naquele tempo não. Em um dia feliz como tantos da minha infância ganhei um dinheiro da minha santa mãezinha e fui comprar um sorvete, aqueles de casquinha. O homem colocava a casquinha na boca de uns vidros que ficavam de ponta cabeça, ligava a máquina e a casquinha ia virando, rodando nas mãos ágeis do sorveteiro e o sorvete ia se apresentado de acordo com o sabor que você pedisse, não tinha muitas opções eram groselha, uva, abacate tudo muito colorido e aquele cheiro era tão bom que enchia a boca de desejo, e o coração de alegria. Naquele dia a primeira lambida que dei o sorvete pendeu para o lado caindo no chão fiquei apenas com a casquinha na mão. Hoje as vezes lembro daquele dia e penso que deveria ter pegado o sorvete do chão, não tinha ninguém vendo e nem minha mãe ensinou a não comer coisas que caísse no chão. E pela vida afora deixei cair coisas ao chão e não voltei para pegar-las.
Na escola nos chamaram pra tirar fotos, em cada série tirávamos uma, pena não ter nenhuma de lembrança, nunca sobrava dinheiro para compra-las.

Neste dia eu usava uma camisa que minha mãe ganhou da irmã dela, com certeza era do meu tio. Lembra da camisa Volta ao Mundo?(Volta ao Mundo vale dez). Se você tiver nascido na década de cinqüenta, vai se lembrar. Eu usava um sutiã, o meu primeiro, verde de bolinhas brancas, juro pra você. Por cima da (Volta ao Mundo, que por sinal era super transparente) usava um suéter de lã vermelha, na hora da foto pediram para tira-lo, e o vexame foi completo, tinha duas manchas de suor amarelas na camisa. Quando tirei a blusa cruzei os braços firmemente entre o peito pra que ninguém descobrisse o meu segredo, naquele dia acreditei piamente que havia conseguido escondê-lo, hoje tenho grandes dúvidas. Não sei se a vergonha era da camisa com as manchas amarelecidas pelo tempo, ou daquelas estampas e cores escolhidas sem nenhum critério. Ainda bem que as crianças naquela época eram menos agressivas e eu não sofri nenhum constrangimento, a não ser o da minha imaginação. Fora hoje, estaria marcada pelo resto da minha vida escolar. Com certeza mudamos todos, onde começou essa mudança que não demos por conta. Quando vimos estávamos assim diferentes, rudes sem compaixão.
Tudo mudou nós e o mundo, mas ali naquela época e lugar a gente vivia numa atmosfera estática. As coisas eram as mesmas sempre.

As roupas eram feitas pra durar, passava de irmão pra irmão de pai pra filho, de morto pra vivo, e se você usasse uma roupa e ficasse grande ou pequena, alguém logo dizia: "O defunto era maior", ou "O defunto era menor".


Minha irmã tinha uma saia de tergal, uma blusa de banllon, e os sapatos eram de verllon e passasse o tempo que passasse aquela roupa um dia seria minha. Não existia o descartável, e sim o lavável, durável o impermeável.

Tudo nas mãos da minha mãe durava, tudo se recriava, tudo se transformava. Os pães amanhecidos viravam saborosos pudins que saltavam aos olhos. Batia maionese na mão e nos fartávamos sem culpa nenhuma, não conhecíamos a "salmonela". Fazia pasteizinhos maravilhosos e ao fritá-los aquela massinha ficava transparente e ao morde-los sentíamos a crocância no barulhinho ao mastigá-lo. Como dizia o poeta, " ...ferve água, pinga pia . E tudo obedecia...". No tempo da minha mãe.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Minha santa mãezinha.


Minha santa mãezinha,
que me viu crescer.
Me ensinou caminhar,
me viu aprender falar.
Hoje se pudesse,
faria o tempo voltar.
E com minhas rimas pobres,
nos teus olhos iria olhar.
Diria mãe que saudade,
como tudo passou rápido.
E pararia o relógio naquela hora,
que você segurou a minha mão,
e caminhamos juntos sem pressa,
pelas ruas ensolarada de nosso bairro.

terça-feira, 25 de maio de 2010

O Poço

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

Pablo Neruda

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Pessoa, me desculpe.

Dançar é preciso, brigar não é preciso.

domingo, 23 de maio de 2010

Minha santa mãezinha.

Minha mãe sempre foi muito brava e austera, apesar de sua aparência frágil. Me lembro que um dia ao abordá-la com um, "Oi véia tudo bem? Ela respondeu categoricamente, "véia é a pqtp". Eu continuei torrando a paciência dela e disse:- Então é a senhora mesma, ela riu e me chamou de "lambona", expressão muito usada por ela quando queria amenizar as coisas, eu ri também e tudo ficou bem.