Minha mãe separava pra mim umas roupas esquisitas, por falta de dinheiro toda roupa que ganhava ela arrumava, reformava e me presenteava. Meu uniforme da escola ela mesma costurava, era uma saia azul marinho pregueada, camisa branca, gravatinha azul marinho também com faixinhas brancas uma, duas de acordo com a série que você cursava, sapatos pretos e meias 3/4 brancas. Ia cedo pra escola, sozinha, subia a Rua Hercília, até o Grupo Escolar José Talárico. As meninas da minha turma pareciam ricas, algumas levavam "Lanche Mirabel" e "guaraná Antárctica caçulinha. Nossa! Aquilo para mim era o máximo! Tinham dinheiro pra comprar pirulito "G'craque" não lembro mais a grafia, lembro que de vez em quando comprava um na saída da escola e vinha pra casa feliz da vida com aquela delícia nas mãos, e chupava com cuidado pra não acabar logo. O chiclete mascava o dia inteiro e quando ia dormir guardava em um copo com água. Engraçado hoje o chiclete quando mascado muito tempo disolve na boca naquele tempo não. Em um dia feliz como tantos da minha infância ganhei um dinheiro da minha santa mãezinha e fui comprar um sorvete, aqueles de casquinha. O homem colocava a casquinha na boca de uns vidros que ficavam de ponta cabeça, ligava a máquina e a casquinha ia virando, rodando nas mãos ágeis do sorveteiro e o sorvete ia se apresentado de acordo com o sabor que você pedisse, não tinha muitas opções eram groselha, uva, abacate tudo muito colorido e aquele cheiro era tão bom que enchia a boca de desejo, e o coração de alegria. Naquele dia a primeira lambida que dei o sorvete pendeu para o lado caindo no chão fiquei apenas com a casquinha na mão. Hoje as vezes lembro daquele dia e penso que deveria ter pegado o sorvete do chão, não tinha ninguém vendo e nem minha mãe ensinou a não comer coisas que caísse no chão. E pela vida afora deixei cair coisas ao chão e não voltei para pegar-las.
Na escola nos chamaram pra tirar fotos, em cada série tirávamos uma, pena não ter nenhuma de lembrança, nunca sobrava dinheiro para compra-las.
Neste dia eu usava uma camisa que minha mãe ganhou da irmã dela, com certeza era do meu tio. Lembra da camisa Volta ao Mundo?(Volta ao Mundo vale dez). Se você tiver nascido na década de cinqüenta, vai se lembrar. Eu usava um sutiã, o meu primeiro, verde de bolinhas brancas, juro pra você. Por cima da (Volta ao Mundo, que por sinal era super transparente) usava um suéter de lã vermelha, na hora da foto pediram para tira-lo, e o vexame foi completo, tinha duas manchas de suor amarelas na camisa. Quando tirei a blusa cruzei os braços firmemente entre o peito pra que ninguém descobrisse o meu segredo, naquele dia acreditei piamente que havia conseguido escondê-lo, hoje tenho grandes dúvidas. Não sei se a vergonha era da camisa com as manchas amarelecidas pelo tempo, ou daquelas estampas e cores escolhidas sem nenhum critério. Ainda bem que as crianças naquela época eram menos agressivas e eu não sofri nenhum constrangimento, a não ser o da minha imaginação. Fora hoje, estaria marcada pelo resto da minha vida escolar. Com certeza mudamos todos, onde começou essa mudança que não demos por conta. Quando vimos estávamos assim diferentes, rudes sem compaixão.
Tudo mudou nós e o mundo, mas ali naquela época e lugar a gente vivia numa atmosfera estática. As coisas eram as mesmas sempre.
As roupas eram feitas pra durar, passava de irmão pra irmão de pai pra filho, de morto pra vivo, e se você usasse uma roupa e ficasse grande ou pequena, alguém logo dizia: "O defunto era maior", ou "O defunto era menor".
Minha irmã tinha uma saia de tergal, uma blusa de banllon, e os sapatos eram de verllon e passasse o tempo que passasse aquela roupa um dia seria minha. Não existia o descartável, e sim o lavável, durável o impermeável.
Tudo nas mãos da minha mãe durava, tudo se recriava, tudo se transformava. Os pães amanhecidos viravam saborosos pudins que saltavam aos olhos. Batia maionese na mão e nos fartávamos sem culpa nenhuma, não conhecíamos a "salmonela". Fazia pasteizinhos maravilhosos e ao fritá-los aquela massinha ficava transparente e ao morde-los sentíamos a crocância no barulhinho ao mastigá-lo. Como dizia o poeta, " ...ferve água, pinga pia . E tudo obedecia...". No tempo da minha mãe.
Na escola nos chamaram pra tirar fotos, em cada série tirávamos uma, pena não ter nenhuma de lembrança, nunca sobrava dinheiro para compra-las.
Neste dia eu usava uma camisa que minha mãe ganhou da irmã dela, com certeza era do meu tio. Lembra da camisa Volta ao Mundo?(Volta ao Mundo vale dez). Se você tiver nascido na década de cinqüenta, vai se lembrar. Eu usava um sutiã, o meu primeiro, verde de bolinhas brancas, juro pra você. Por cima da (Volta ao Mundo, que por sinal era super transparente) usava um suéter de lã vermelha, na hora da foto pediram para tira-lo, e o vexame foi completo, tinha duas manchas de suor amarelas na camisa. Quando tirei a blusa cruzei os braços firmemente entre o peito pra que ninguém descobrisse o meu segredo, naquele dia acreditei piamente que havia conseguido escondê-lo, hoje tenho grandes dúvidas. Não sei se a vergonha era da camisa com as manchas amarelecidas pelo tempo, ou daquelas estampas e cores escolhidas sem nenhum critério. Ainda bem que as crianças naquela época eram menos agressivas e eu não sofri nenhum constrangimento, a não ser o da minha imaginação. Fora hoje, estaria marcada pelo resto da minha vida escolar. Com certeza mudamos todos, onde começou essa mudança que não demos por conta. Quando vimos estávamos assim diferentes, rudes sem compaixão.
Tudo mudou nós e o mundo, mas ali naquela época e lugar a gente vivia numa atmosfera estática. As coisas eram as mesmas sempre.
As roupas eram feitas pra durar, passava de irmão pra irmão de pai pra filho, de morto pra vivo, e se você usasse uma roupa e ficasse grande ou pequena, alguém logo dizia: "O defunto era maior", ou "O defunto era menor".
Minha irmã tinha uma saia de tergal, uma blusa de banllon, e os sapatos eram de verllon e passasse o tempo que passasse aquela roupa um dia seria minha. Não existia o descartável, e sim o lavável, durável o impermeável.
Tudo nas mãos da minha mãe durava, tudo se recriava, tudo se transformava. Os pães amanhecidos viravam saborosos pudins que saltavam aos olhos. Batia maionese na mão e nos fartávamos sem culpa nenhuma, não conhecíamos a "salmonela". Fazia pasteizinhos maravilhosos e ao fritá-los aquela massinha ficava transparente e ao morde-los sentíamos a crocância no barulhinho ao mastigá-lo. Como dizia o poeta, " ...ferve água, pinga pia . E tudo obedecia...". No tempo da minha mãe.
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